Marca Serra Gaúcha: o que está em jogo para Gramado e a Região das Hortênsias

Atualizado: há 6 minutos
Opinião | Gramado e a Região das Hortênsias não precisam de outro nome para existir
Por Tela Tomazeli

Nasci em Gramado e acompanho, há décadas, a construção da identidade desta cidade e da região. Por isso, olho com atenção, e com respeito, para o projeto que pretende transformar a expressão “Serra Gaúcha” em marca oficial.
Reconheço o mérito da intenção. Organizar a promoção regional e profissionalizar a gestão do turismo são objetivos legítimos. Mas uma marca territorial não nasce de um concurso de design: nasce de história, pertencimento e reconhecimento de quem vive no lugar. E a Região das Hortênsias já tem isso, construída por muitas mãos. Gramado, por sua vez, tem sua própria marca, “Gramado Feita de Histórias”, e trabalha para resgatar a autenticidade e o pertencimento do morador.
Segundo Thomas Fontana, fundador do G30 Serra Gaúcha, o projeto não é contra outras marcas. A orientação do briefing de evitar submarcas, explica ele, valia apenas para o concurso: alguns participantes das reuniões queriam que fossem criadas marcas para Hortênsias, Uva e Vinho e Campos de Cima da Serra alinhadas à regional, e isso foi excluído. Ainda assim, me preocupa que, em nome da unificação, identidades que levaram anos para se consolidar percam espaço. E uma marca que se pretende de todos não pode nascer sem o reconhecimento de quem representa o setor na região.
Também falta clareza: a governança ainda está em formação, as regras de uso não estão definidas e a cobrança de royalties e o acesso a recursos públicos dependem de regulamentação que ainda não existe.
Não se trata de ser contra a cooperação regional. Gramado sempre contribuiu com a região e seguirá contribuindo. Trata-se de não abrir mão de uma história.
Particularmente, não apoio substituir ou sobrepor a Região das Hortênsias e a marca Gramado por outro nome. A nossa memória não é um ativo a ser reposicionado. É o que somos.

Concurso coordenado por grupo privado propõe identidade única para três microrregiões; Sindtur rejeita a iniciativa e Secretaria de Turismo de Gramado condiciona interesse ao retorno para o município
A Serra Gaúcha deve conhecer em 13 de novembro, durante o Festuris, em Gramado, a marca escolhida para representá-la oficialmente. A votação popular termina neste domingo, 25 de outubro. Apresentado como um processo colaborativo, o projeto encontra resistência na Região das Hortênsias e levanta perguntas que ainda não têm resposta pública.
A proposta
A iniciativa é coordenada pela Somos.RS, em parceria com o G30 Serra Gaúcha e a Atria Design e Inovação, com adesão de mais de 20 entidades setoriais e 10 prefeituras. A Somos.RS é um grupo empresarial privado, sediado em Porto Alegre, e o G30 Serra Gaúcha foi criado e é administrado pela própria empresa.
O objetivo declarado é transformar a expressão “Serra Gaúcha” em ativo de branding territorial: unificar as microrregiões, proteger a identidade regional, promover o destino e permitir a estruturação futura de licenciamento e monetização da marca, com reinvestimento em promoção. O território abrange 49 municípios das microrregiões Uva e Vinho, Hortênsias e Campos de Cima da Serra, e o briefing pede que a marca evite a criação de sub-marcas regionais.
Quem será o dono
A expressão “Serra Gaúcha” está registrada no INPI como destino turístico e, segundo a organização, será transferida pelo seu titular a uma governança em formação. O regulamento não informa quem é esse titular. A promessa é que a nova estrutura reúna entidades e prefeituras e defina as regras de uso institucional e comercial.
A conexão com a PEC do Turismo
O mesmo grupo que coordena a marca atuou na articulação da PEC do Turismo, e as duas pautas constavam lado a lado entre as prioridades do grupo. A emenda, de autoria do deputado Guilherme Pasin e outros 46 parlamentares, não trata de marcas regionais. Mas cria o Fundetur com assento constitucional e prevê Distritos e Estâncias Turísticas com governança público-privada. A regulamentação ainda vai definir os critérios de acesso aos recursos.
A posição da Secretaria de Turismo de Gramado
Para o secretário de Turismo de Gramado, Ricardo Bertolucci Reginato, o futuro da marca está ligado justamente a essa regulamentação.
“Vai depender bastante de como será regulamentada a PEC. A intenção clara do G30 é que a Serra seja o primeiro distrito turístico do RS”, afirma.
O secretário condiciona o interesse do município ao retorno para Gramado. “A grosso modo, minha opinião é que se for para criar um novo motor de busca de receita para Gramado, e nova geração de fluxo turístico, estamos dentro. A gente sempre busca contribuir com a região como um todo, mas o esforço central é em promover a marca Gramado e todo o ecossistema que existe aqui.” O município conduz seu próprio plano de place branding, que culminou no posicionamento “Gramado - feita de histórias”.
A posição do Sindtur
O Sindtur Serra Gaúcha, que representa a hotelaria, gastronomia, parques e museus de Canela, Gramado, São Francisco de Paula e Nova Petrópolis, rejeita a iniciativa. Em declaração publicada pelo jornalista Caique Marquez, o presidente da entidade, Cláudio Souza, afirmou:
“Em relação à marca Serra Gaúcha, informamos que não reconhecemos a mesma como identidade da nossa região. Há anos, muitas mãos trabalham a Região das Hortênsias, nossa marca, que é nossa identidade e está consolidada. Assim permaneceremos. Em momento algum o Sindtur e seus associados autorizaram a criação de outra marca que viesse a substituir ou representar nossa região.”
Serviço
A votação ocorre no site marcaserragaucha.com.br, com um voto por CPF, até 25 de outubro. As finalistas são da Agência e21 e de Leonardo Wichrestiuk Torres, de Porto Alegre, e de João Henrique Thomasi Delfino, de Bauru (SP). A revelação será em 13 de novembro, no Festuris.
*O Gramado Magazine está aberto à manifestação da organização do concurso e das demais entidades envolvidas.
Marca Serra Gaúcha: Thomas Fontana responde sobre registro, governança e distrito turístico

Quem é hoje o titular do registro “Serra Gaúcha” no INPI?
Esta informação é pública, presente no site do INPI. Faz alguns anos que está em meu nome. De lá para cá, nunca fiz uso deste direito. Aguardava a viabilização da marca para, como já falei publicamente em diversas reuniões, releases etc., doá-la para a governança. Fiz o mesmo processo em outras situações, como Galópolis. Hoje a marca é da governança de lá, pois eu doei.
Como será composta a governança que vai administrar a marca? O G30 e a Somos.RS terão algum papel nela?
Isso está em construção, no diálogo com mais de 40 entidades e cidades, durante N reuniões do G30. Ainda não concluímos este processo diante das demandas da EC, mas já estamos com reuniões para finalizar a estruturação.
O G30 certamente fará parte, mas não necessariamente numa coordenação. Isso será definido pelo grupo. Já a Somos.RS é minha empresa privada e, por isso, não participa da governança (entendo que serão entidades e prefeituras).
Existe a intenção de propor a Serra Gaúcha como distrito turístico, nos termos da PEC do Turismo? Se sim, em qual formato de gestão?
Sem dúvida. Entendo que tem tudo para ser o 1º Distrito Turístico, se essa governança chegar a um consenso. Quanto ao formato, ainda não podemos precisar, pois a regulamentação dos DTs e outras instruções da Emenda está em curso. As regras não estão definidas.
A governança da marca pretende acessar recursos do Fundetur?
Entendo que a governança da marca será a mesma do Distrito. E, claro, já está na EC que os Distritos acessam recursos. Então, sim, certamente terá recursos para trabalhar sua promoção e outros projetos da região.
Haverá cobrança pelo uso comercial da marca? Como será a prestação de contas?
Minha opinião é que o uso institucional deve ser livre e o uso comercial, onde há ganho direto de dinheiro com ela, seja remunerado, via royalties, para um fundo de promoção do destino gerido pela governança. Já coloquei essa sugestão em N reuniões do G30, mas, como a governança ainda não está fechada, este modelo é só uma proposição do líder do processo, que não impõe nada.
O Sindtur Serra Gaúcha declarou que não reconhece a marca. Como o G30 avalia essa posição e a convivência com marcas já consolidadas, como Região das Hortênsias e Gramado?
O Sindtur sempre foi e sempre será convidado para participar da discussão. Em todas as iniciativas que o G30 propõe, e que têm a adesão dos municípios e de mais de 30 outras entidades , o sindicato foi chamado. Por algum motivo que não nos foi dado, optou por não participar e não reconhecer este processo (da marca) e outros, como o próprio EstruTUR (que aprovou a EC 86) e quando viabilizamos os R$ 40 milhões para a campanha Viva o Inverno Gaúcho.
De qualquer forma, a porta está aberta.
Quanto às demais marcas, reconhecemos que todas são válidas. Tem horas que as microrregiões, através de suas governanças, querem se posicionar exclusivamente, assim como os municípios, por óbvio, precisam cuidar de suas marcas individuais. No entanto, reconhecemos uma potência enorme, adormecida, na expressão Serra Gaúcha. Em termos de comunicação, ela pode trazer muitos ganhos para todos.
Thomas Fontana é publicitário e empresário, fundador e CEO da Somos.RS, empresa de Porto Alegre que atua no desenvolvimento do turismo gaúcho. É o fundador do G30 Serra Gaúcha (desde 2017) e do G30 Porto Alegre. No projeto da marca, ele lidera o processo, através do G30. Também foi um dos articuladores da PEC do Turismo, aprovada em junho pela Assembleia Legislativa, e escreve artigos sobre profissionalização e governança do turismo, como no Jornal do Comércio.
























































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