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Isidro Belotto: Uma vida de raízes profundas em Gramado

  • Foto do escritor: Tela Tomazeli | Editora
    Tela Tomazeli | Editora
  • há 1 hora
  • 5 min de leitura

Isidro Belotto, 78 anos, nasceu em Gramado, RS em 1946, dentro do armazém do pai, com parteira, na Rua João Alfredo Schneider, 303, Bairro Planalto. E nunca saiu de lá. São 78 anos no mesmo endereço. A mesma casa. As mesmas paredes que viram ele dar os primeiros passos.
Isidro Belotto, 78 anos, nasceu em Gramado, RS em 1946, dentro do armazém do pai, com parteira, na Rua João Alfredo Schneider, 303, Bairro Planalto. E nunca saiu de lá. São 78 anos no mesmo endereço. A mesma casa. As mesmas paredes que viram ele dar os primeiros passos.





Por: Tela Tomazeli

Editoria: Gente & Sociedade

 

Minhas contações... Com quem eu aprendi e vivi...

Quanto mais somamos a contação de histórias sobre Gramado, mais trazemos à tona as lembranças de um tempo que não volta mais. Eu tenho em minha vida de cidadã e de jornalista uma veia que traz Gramado e faz Gramado. Não somente conto, vivo, reivindico e mantenho viva, muitas vezes a duras penas, a tentativa de manter ao menos o mínimo de nossa vida, de nossos antepassados, dos sábios ensinamentos do meu nono Bordin, que tem uma rua com o nome de seu pai no Bairro Floresta, Augusto Bordin (bisa). E sabe, quando olho para meu filho, Pedro Augusto, vejo no nono Bordin o trejeito do lábio, o sorriso atrás do olhar e como era espirituoso.


Já de meu pai, Ivo Pedro Tomazelli, que também tem uma rua no Bairro Dutra, bem pertinho da garagem da Prefeitura, onde foi Secretário de Obras por anos, Ivo Pedro Tomazelli mostra minhas veias. Mas também a memória de minha mãe colhendo uvas nas parreiras do tio Chico e da tia Chica Perini. Da Dona Irma Peccin e da Susana Bertolucci, olhando pelas flores de Gramado. Do tio Bepe Perini e do Seu Alméri Peccin, que até hoje não fazem jus a seu nome dado ao espaço onde está a Expogramado.


Do tio Walter Bertolucci e seu escritório, onde hoje está o complexo de restaurantes da Rua Coberta, onde víamos de fora, ao passar, além da linda magnólia, sua careca. Estava sentado à mesa escrevendo, ou da pequena casa de madeira, na esquina da Theobaldo Fleck com a Garibaldi, sustentada anos pelo alicerce. Ou talvez o seu Fusca, em que hoje o Fedoca ainda anda, que largava no meio da rua para prosear com quem passava. E a Dona Edelvira, a pessoa invisível mais presente que já vi. Como era bom prosear com o Tio Walter. Eu vinha pela calçada da Borges, e lá estava ele, sentado no banco de madeira em frente ao escritório do Fedoca, hoje Lugano, e ele já abria um largo sorriso, me abraçava, oferecia o banco e ali proseávamos.


Nossa, uma pequena introdução virou uma narrativa. Sim, sou uma pessoa cheia de histórias e hoje vou contar a do Belotto. Conheço-o de uma vida e sou fã de carteirinha do Bar da Rodoviária de Gramado. Vamos a mais uma contação.

 

Hoje vamos conhecer Isidro Belotto através do Podcast Histórias de Gramado, que nos autorizou a trazer as entrevistas.


Tela Tomazeli

 

 


 Isidro Belotto

Tem histórias que a gente não inventa. Tem vidas que são o próprio retrato de uma cidade. Isidro Belotto, 78 anos, é isso. Nasceu em Gramado, RS em 1946, dentro do armazém do pai, com parteira, na Rua João Alfredo Schneider, 303, Bairro Planalto. E nunca saiu de lá. São 78 anos no mesmo endereço. A mesma casa. As mesmas paredes que viram ele dar os primeiros passos.


O pai, Henrique Belotto, tinha armazém desde 1929. A família era grande: cinco irmãos, uma irmã. Hoje são cinco vivos. Um deles, Floriano, foi tentar a vida nos Estados Unidos nos anos 60 ou 70. Mas Isidro ficou. Sempre ficou.


A escola era a Santos Dumont, onde hoje fica o Banrisul. Naquele tempo, só o centro tinha asfalto. O resto era chão batido. As crianças iam de chinelo ou alpargata, mesmo no inverno. E a diversão? Futebol. Muito futebol nos campinhos aos domingos.


Em frente à casa passava o trem. De noite, era um espetáculo ver as faíscas do carvão iluminando tudo. As carretas puxadas por mulas faziam o transporte de carga. Tinha o Nelo carreteiro, o pai do Serginho da Fubica. E tinha o Foto Alex, fotógrafo alemão que também fazia transporte em kombis para os bailes nas colônias.


Isidro começou a trabalhar numa fábrica de móveis de vime, junto com os irmãos. Foi lá que conheceu Iraci Andreis Belotto, professora, que viria a ser sua esposa. Casaram quando ele tinha 35 anos, por volta de 1970 ou 71. Tiveram dois filhos: Fabrício e Cristiano, que hoje trabalham com ele.


Passou seis anos no Restaurante Steinhaus, propriedade de Astrogildo do Angeli. Mas foi na rodoviária que encontrou o seu lugar. Desde 1969. São 45 anos de lancheria, de atendimento, de café quentinho de manhã cedo. A rodoviária ficava antes na Avenida das Hortênsias, a antiga Coronel Diniz. Ficou lá seis anos. Depois mudou para a Borges de Medeiros, nos anos 80, e está lá até hoje.


O jeito de trabalhar de Isidro não é comum. Tudo é pago em dinheiro vivo. Fornecedores, funcionários. Nada de fiado. Os salários são pagos sempre no dia primeiro do mês, em dinheiro. Faz isso há 45 anos sem falhar. São 16 funcionários divididos em dois turnos. A lancheria abre às 6 da manhã e fecha às 22h30. Tem três cozinheiras. E uma regra sagrada: nada do dia anterior é servido no dia seguinte. Tudo tem que ser fresco.


O pastel dele é famoso. Não porque mudou, mas porque nunca mudou. A receita é a mesma há anos. E funciona. Tem gente de Porto Alegre que vem a Gramado só para tomar café na rodoviária.


Isidro tem um Ford Corcel 1977. O mesmo dono há 48 anos. Esse carro já salvou a vida dele. Numa vez que levou cinco tiros num assalto, a lataria resistente segurou.


Quando perguntam o que ele sente falta da Gramado antiga, a resposta vem rápido. Sente falta da vida simples, dos campinhos de futebol, de conhecer todo mundo na rua. Dos jogos no estádio dos Pinheirais comendo amendoins do Cartana. Dos passeios ao Lago Negro e ao Parque Hotel.


Gramado mudou. O alcoolismo que antes era comum nas ruas diminuiu 80, 90%. Mas a vida comunitária também se perdeu. Os gramadenses trabalham principalmente nos fins de semana por causa do turismo. Na missa de domingo, só uns 15% são moradores locais.


Isidro carrega uma coisa rara: não tem inimigos. Trabalha no comércio há décadas, atende todo tipo de gente, e não tem um inimigo em Gramado. Todo mundo que encontra na rua é amigo.


A casa onde nasceu continua sendo sua. O pai, Henrique, sempre quis que aquela moradia ficasse na família. E Isidro honra essa vontade todos os dias. Não é só uma casa. É um legado. É raiz. É memória viva de uma Gramado que poucos ainda lembram.


Isidro Belotto não é só um comerciante. É um guardião de histórias, de valores, de um jeito de viver que insiste em resistir ao tempo. E enquanto ele estiver lá, na rodoviária, servindo café fresco e pastel com a mesma receita de sempre, Gramado terá um pedaço da sua história preservado. Vivo. Pulsante. Real.


 

*Com apresentação de Luia Barbacovi, o PodCast Estórias de Gramado, conta histórias curiosas de Gramado. Estórias de grandes disputas esportivas, de bailes animados, campanhas políticas ou até mesmo gafes cometidas por autoridades, políticos ou dirigentes de entidades. Esta entrevista, especificamente, foi conduzida pelo jornalismo Miron Neto – Gramado TV. Esta entrevista aconteceu de 2024.





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