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Lutos e Perdas

Foto do escritor: Psicanálise em Conversa I Dr. Mauricio Bolzan
Psicanálise em Conversa I Dr. Mauricio Bolzan
há 4 minutos
2 min de leitura

Antes mesmo de sabermos o que é perder, já havíamos perdido. Durante meses habitamos um lugar onde a temperatura era constante, os sons chegavam abafados e nada parecia faltar. Então tudo mudou. A luz invadiu nossos olhos ainda despreparados, o barulho assustou e o primeiro choro anunciou nossa chegada ao mundo. Nascemos! Ao ganhar a liberdade de crescer, descobrir e construir uma vida, também deixamos para trás o abrigo que nos sustentava. Talvez essa seja nossa primeira experiência de perda. A vida contém muitas delas.


Deixamos para trás fases da infância, amizades que seguem outros caminhos, lugares que deixamos, sonhos que mudam de forma e pessoas que amamos. Nem toda perda se transforma em luto, mas todo luto nasce de algo que tinha valor para nós. Cada pessoa atravessa esse caminho de maneira diferente. Há quem chore muito, há quem permaneça em silêncio, quem se torne mais impaciente, quem precise falar repetidamente sobre quem partiu e quem demore meses para sentir aquilo que parecia não existir nos primeiros dias. Não há uma única forma correta de viver o luto.


O envolvimento com a resolução dos trâmites necessários para o velório, a urgência dos documentos, das decisões práticas e das responsabilidades pode adiar o encontro com a própria dor. Em outros momentos, é a resistência em aceitar o acontecimento que mantém o sentimento suspenso até que, um dia, ele finalmente encontra espaço para existir.


Elaborar o luto não significa esquecer, significa permitir que a ausência encontre um lugar dentro de nós sem impedir que a vida continue acontecendo. Com o tempo, voltar aos poucos aos hobbies, às amizades e aos pequenos compromissos cotidianos não representa uma traição à memória de quem se foi, representa o reconhecimento de que ainda existe vida e que a pessoa perdida está com nós de outra forma.


Em alguns casos, porém, essa dor pode tornar-se tão intensa e persistente que ultrapassa o curso esperado do luto e merece atenção profissional. Pedir ajuda também pode fazer parte desse caminho.

O Dia de Finados nos convida justamente a esse encontro entre memória e continuidade. Levar uma flor ao cemitério, acender uma vela, olhar uma fotografia ou simplesmente recordar alguém querido é um modo de manter essa memória viva e de nos confortar também. São maneiras de cuidar da lembrança, de reconhecer o vínculo que existiu e de acolher a saudade que permanece. Lembrar de alguém também é lembrar de quem éramos quando estávamos ao lado dessa pessoa.


Não precisamos deixar a memória para trás, mas precisamos seguir em frente e olhar para a vida. A saudade pode permanecer, e isso não impede que a vida, aos poucos, volte a florescer.


 

Nesta coluna, o psicólogo Dr. Maurício Bolzan compartilha reflexões sobre os vínculos humanos e os desafios emocionais que atravessam as diferentes fases da vida.


O conteúdo publicado é de inteira responsabilidade do colunista.


Dr. Maurício Bolzan

Psicólogo | Psicanálise | CRP 07/42791

Atende crianças, adultos e idosos, além de gestantes, bebês e futuros pais. Especialista na relação entre pais e bebê.


Atendimento presencial em Gramado e Canela (RS) e também online. Telefone: (54) 99170-2020

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