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Inquietações

Foto do escritor: Psicanálise em Conversa I Dr. Mauricio Bolzan
Psicanálise em Conversa I Dr. Mauricio Bolzan
há 48 minutos
3 min de leitura

Esta nova coluna vai abordar temas trazidos por pessoas da nossa comunidade que trazem temas oportunos para nossas reflexões.


Seguimos com o questionamento da leitora:


“Como evitar que o silêncio diante das brigas políticas, mesmo tendo opinião própria, se transforme em mal-estar no corpo e na mente?”


Neste momento político, muitas pessoas estão envolvidas com o tema, ainda que apenas acompanhando os acontecimentos por redes sociais. Além do envolvimento, há muita intensidade; temos acesso às informações praticamente em tempo real. Se, quando acordamos, pegamos o celular, ao abrir uma rede social, muito provavelmente logo algo relacionado à política surgirá. Isso é diferente de como acontecia um tempo atrás, quando, para saber novidades, tínhamos que nos interessar por ler um jornal, ligar a televisão ou o rádio em um horário específico. O envolvimento talvez seja uma das respostas para essa inquietação. Mais do que termos uma opinião política, estamos incorporando esse assunto constantemente ao nosso cotidiano e às nossas conversas, mesmo fora do período eleitoral. Claro que não podemos ignorar que inúmeros acontecimentos recentes merecem nossa atenção e preocupação, mas envolver-se emocionalmente demais pode não ser salutar.


Ter opinião é importante, mas expô-la pode causar um grande desgaste. Cabe questionar se esse desgaste é realmente necessário e se produz algum resultado efetivo.


Quando formamos nossa opinião, ela está envolta por nossas próprias questões, preocupações, frustrações, faltas e expectativas. Fazer com que alguém mude seu ponto de vista pode ser difícil, pois aquilo que pensamos não está separado do que sentimos e vivenciamos ao longo da vida. Nossas opiniões também são atravessadas por experiências pessoais, frustrações, expectativas e até por questões que nem sempre conseguimos nomear.


Logo, quando falo que sou a favor ou contra algo, há muito mais ali que não coloco em palavras; existem sentimentos e questões intrínsecas. Por isso, o diálogo político tem se tornado algo tão desgastante e intenso. Cada indivíduo, ao dar seu ponto de vista, investe junto um pouco de si, que nem sempre é notado pelo outro. Causa, com isso, discussões em que se percebe que pessoas diferentes até concordam com o objetivo final, mas, para isso, traçam caminhos totalmente diferentes.


“Cada indivíduo, ao dar seu ponto de vista, investe junto um pouco de si, que nem sempre é notado pelo outro.”


Para preservar nossa saúde emocional, cabe pensar se estamos acompanhando excessivamente os noticiários políticos e direcionando energia demais a esse assunto. Talvez seja o momento de buscar outros conteúdos, ler sobre temas diferentes e permitir que nossa atenção se volte também para outras experiências. É importante observar como isso tem nos afetado, se temos nos sentido mais impacientes, ansiosos ou irritados.


Há também uma diferença entre escolher o silêncio e sentir-se impedido de falar. No primeiro caso, posso reconhecer que aquele não é o momento ou o espaço adequado para expressar minha opinião. No segundo, posso sentir que estou negando algo em que acredito, seja por receio de julgamentos, conflitos ou rejeição. Essa diferença merece nossa atenção, pois nem sempre o silêncio representa tranquilidade; às vezes, pode ser justamente o que alimenta nosso desconforto.


Para que possamos manter nossas convicções sem que isso se torne um mal-estar para o corpo e para a mente, precisamos prestar atenção aos sinais. Podemos, sim, nos posicionar, porém escolhendo momentos e espaços em que haja abertura para o diálogo, evitando discussões improdutivas e situações de grande desgaste emocional.


Temos uma tendência a ser coerentes com nossos pensamentos, ideias e opiniões, permanecendo fiéis a isso, mesmo quando tudo parecer provar estarmos errados. Tentar convencer os outros a pensar como nós pode se aproximar mais do mito de Sísifo do que de uma realidade palpável. Isso pode se tornar uma utopia desgastante demais. Talvez precisemos reconhecer que nem todas as discussões precisam terminar em convencimento.


O desafio pode não ser escolher entre falar e silenciar, mas encontrar um modo de conviver com as divergências sem deixar nossas convicções de lado, sem deixar que tudo isso ocupe mais espaço do que deveria. Podemos defender nossas ideias, questionar as dos outros e até mudar de opinião. Mas não precisamos transformar cada discordância em uma batalha. Preservar nosso bem-estar também é uma forma de posicionamento.



Nesta coluna, o psicólogo Dr. Maurício Bolzan compartilha reflexões sobre os vínculos humanos e os desafios emocionais que atravessam as diferentes fases da vida.


O conteúdo publicado é de inteira responsabilidade do colunista.


Dr. Maurício Bolzan

Psicólogo | Psicanálise | CRP 07/42791

Atende crianças, adultos e idosos, além de gestantes, bebês e futuros pais. Especialista na relação entre pais e bebê.


Atendimento presencial em Gramado e Canela (RS) e também online. Telefone: (54) 99170-2020



Você tem algo que o inquieta? Escreva para o e-mail da redação: tela@telatomazeli.com.br. Você poderá ter sua questão comentada pelo psicólogo Maurício Bolzan em sua coluna. O sigilo da fonte será mantido.

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