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Foto do escritor: Gente & Sociedade - Tela Tomazeli
Gente & Sociedade - Tela Tomazeli
há 12 horas
5 min de leitura

Festival de Cinema de Gramado. Tela Tomazeli
Festival de Cinema de Gramado. Tela Tomazeli


Ao longo dos anos, o nosso olhar sobre o caminho da vida vai se transformando. Dizem que os "velhos" têm sabedoria. Talvez seja isso: assim como entramos na escola para a alfabetização, as etapas da vida evoluem, querendo nós ou não.


Às vezes olho, nas redes sociais, vídeos de crianças recém-nascidas, engatinhando, e penso que não há tanta diferença de um filhotinho de bicho. Dependem dos pais para tudo. Depois vamos sendo moldados, e talvez seja essa a diferença entre nós e os animais.


Aprendemos com o nosso entorno e carregamos, como uma mochila, a bagagem de valores que recebemos. Mas vou parar de falar na terceira pessoa. Cada um tem a sua história, e esta é a minha.

Lembro, ou será que lembro? Não sei bem que memória é esta, mas eu não queria sair da barriga da minha mãe. Tenho uma clareza impressionante disso. Até hoje carrego a imagem do feto encolhido, flutuando, incomodado com os barulhos de fora. Não me peça explicação, não tenho. Foi assim, e é assim.


Lembro também de ser daminha de casamento. Eu era a mais escolhida, se bem me lembro. Lá estava eu no Salão da Sisa, na Borges, entre onde hoje ficam o Il Piacere e o Pastasciuta. Ficava no alto, com um muro de pedras na frente e uma escada de basalto. Era o salão da época, coisa de 58 anos atrás.

Mas o que mais me volta é a convivência com o nono e a nona Bordin, lá no Vinte e Oito. Vivo repetindo: foi o meu melhor tempo. Andávamos pelas estradas da colônia, entre o Moinho do Tio Aurélio e a casa da Tia Norma. Nas festas de São Valentim, só comprávamos o churrasco, feito em espeto de pau, e almoçávamos no gramado, como um piquenique. Os banhos de rio. Levar a Santinha de casa em casa, coisa que faço até hoje no meu condomínio. As brincadeiras nas caixas de farinha. As uvas na bacia de alumínio que a Tia Chica deixava prontas para quando a gente passasse, e o Tio Chico no vai e vem da cadeira de balanço.


E o "vir para Gramado" no caminhão do leiteiro, o Wiltgem. Eu ia com o nono até a parada onde ele recolhia o leite para levar à Corlac, onde hoje é a Brigada Militar. Vínhamos sentados nos tarros, mas quando o tempo estava ruim, o Wiltgem arrumava um lugar para mim na cabine. Ali eu me senti acolhida. Se eu for contar tudo o que vivi com o nono e a nona, publico um livro. Eu era muito, muito amada. E herdei da nona os olhos, tão azuis quanto os dela.


Já mais crescida, lembro do matadouro do Tio Darci, onde hoje é a Real Wood, naquela ruazinha em frente à Brigada. A maior diversão era sentar nos bretes e ver os bois entrarem. Não te escandalizes: éramos crianças e não víamos nada de ruim naquilo. Era alimento, e a gente circulava pelo matadouro convivendo com tudo. O Tio Darci andava de tamancos, calça arregaçada acima do tornozelo, camisa de manga curta, aberta no peito, sempre com facas grandes na mão. Depois do meu nono Pedro, foi a pessoa mais espirituosa com quem convivi. E ainda tinha a Tia Ilse, sempre bem-humorada, cheia de piadas. Era uma casa muito divertida. Lembro dos dois agora, sorrindo, enquanto escrevo.


Vou encurtando. Aos 12 anos comecei a estudar à noite e trabalhar de dia, CLT. Acho que foi aí que comecei a conhecer aquela parte do mundo que eu imaginava da janela, enquanto a nona cozinhava, olhando o horizonte lá do Vinte e Oito e pensando no que existia depois daquela estrada.


Na escola, mesmo à noite, já havia o enquadramento, o bullying de hoje. Foi quando comecei a ter vergonha do guarda-chuva e do sapato embarrado. Tinha uma turma que ficava na porta do Estadual mirando os "pobres". Os escolhidos eram colocados nesse lugar: um nada. Eu morava na Baixada, no Bairro Piratini. Passei a subir de bota de borracha e, ao chegar no asfalto, na Avenida das Hortênsias, em frente à Igreja Evangélica, escondia as botas, calçava um sapato limpo e deixava ali também o guarda-chuva. Era melhor chegar molhada do que chegar com guarda-chuva.


A única saída que eu via era me posicionar. Não pelo dinheiro, que eu não tinha, mas pela boca. Literalmente.


Começou ali uma gestão de posicionamento. Agressiva, vitimista, marqueteira, política. Eu jogava para todos os lados, porque precisava existir num meio que era excluída. Sim, estamos falando de Gramado. E não é queixa. É só para dizer que já naquela época não era fácil.


A mochila foi ficando pesada. Para ganhar espaço, descobri que era preciso jogar, e joguei pesado, porque era assim que eu era tratada, e muito maltratada. Não vou detalhar o caminho da guria, porque foi pesado, muito pesado. Aprendi que quem cuida de mim sou eu, e que todo favor tem que ser pago de volta. Isso me endureceu, me fechou, me cicatrizou. Me deixei usar para ter espaço. A mochila transbordava, e eu já não sabia a que tinha vindo. Aí entrei na vitimização, talvez a pior fase de todas.


Encurtando a prosa: tudo isso são 50 anos. Até que, num momento de terapia, me vi na beira de um penhasco muito alto. Lá embaixo, uma cidadezinha: Gramado. Tirei as alças dos ombros e joguei a mochila. Não sei para onde ela foi. Só sei que meus ombros aliviaram. E começou um novo processo, aos 50: quem sou, para onde vou, como seguir sem a minha mochila, na verdade, minha bengala.


Mas uma imagem sempre me acompanhou, mesmo nas depressões profundas, nas crises de pânico, e foram algumas: um túnel de Luz. Até hoje o vejo. É para ele que sigo. Esse é o meu objetivo, a Luz.

Este diário de sábado talvez nem interesse a ninguém, mas eu quis escrever. Estou, bravamente, me tornando a pessoa que sou, e não a que permiti que fizessem de mim para ter um espaço na sociedade.

E aqui está o ponto, a grande verdade que levei 50 anos para enxergar: ninguém faz nada de nós.

Somos nós que permitimos. Criamos expectativas, entregamos aos outros o poder de nos moldar e, quando chega a cobrança, nos colocamos no papel de vítima. Quando entendi isso, a mochila deixou de ser culpa de alguém. E, com isso, eu pude, finalmente, largá-la.

 

Que bom. Que bom tudo o que tenho e o que sou, as pessoas com quem convivo e a minha família, de onde hoje brota uma afetividade ímpar.


Tudo isso para mostrar, pelo meu olhar, como eu vejo o meu mundo depois desta trajetória de 65 anos. É sobre isso: do que eu vivi ao que me tornei!


Estas são algumas das imagens que estarão na minha exposição no Festival de Gastronomia de Gramado, de 8 a 18 de outubro, no entorno do Lago Joaquina Rita Bier. São fotos do meu arquivo de mais de 40 anos, impressas e à venda. Venha me visitar!


Obrigada, Luia Barbacovi, e obrigada, Abrasel, por receberem o meu trabalho.


Tela Tomazeli




Gramado Magazine, 19 anos! Não é sobre número, é sobre pessoas!
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