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Sobre Escolhas

Foto do escritor: Psicanálise em Conversa I Dr. Mauricio Bolzan
Psicanálise em Conversa I Dr. Mauricio Bolzan
há 19 minutos
3 min de leitura

Quantas de nossas escolhas são conscientes, e em quantas percebemos posteriormente que talvez quiséssemos realmente outra coisa? Durante a vida, precisamos aceitar muitas coisas sem que tenhamos opção de escolha, como o lugar onde nascemos, nosso corpo, as doenças que nos acometem e perdas inesperadas, por exemplo. Mas, na vida adulta, a maioria de nós tem liberdade para escolher a profissão, decidir se terá filhos, se irá casar e se irá comprar uma casa ou um carro.


Porém, a liberdade dessas escolhas pode ser apenas parcial, mesmo quando acreditamos tê-las escolhido de maneira consciente.


Sofremos muita influência do ambiente em que vivemos e da forma como fomos criados, se fomos amados, acolhidos, se tivemos espaço para nossos sentimentos durante o desenvolvimento na infância.


Tudo isso participa da maneira como aprendemos a lidar com o mundo, com nossos sentimentos e com as dificuldades. Influencia nossa capacidade de resolver conflitos, tomar decisões e enfrentar situações adversas. Essa capacidade, porém, não é igual para todos.


O psicanalista Donald Winnicott dizia que, para se desenvolver de maneira saudável, o bebê precisa de um ambiente suficientemente bom, ou seja, de alguém que possa acolhê-lo, adaptar-se às suas necessidades e, ao mesmo tempo, permitir que ele desenvolva seu próprio modo de existir. Quando o ambiente exige uma adaptação excessiva, a criança pode aprender a se moldar às expectativas dos outros. É nesse contexto que Winnicott desenvolve a ideia de falso self, uma forma de funcionamento construída para responder às exigências externas, enquanto aquilo que é mais próprio do indivíduo permanece protegido.


Quando somos crianças, ainda muito vulneráveis ao mundo e dependentes dos adultos, aprendemos maneiras de nos comportar e de dar determinadas respostas diante das situações da vida. Imagine, por exemplo, que o coleguinha de aula pegou o lápis da criança na escola sem pedir e não quis devolver.


Os pais podem dizer que seu filho deve pedir o lápis de volta com educação, podem orientar a reclamar diretamente para a professora, ou podem ensinar que ele deve tomar o lápis de volta a qualquer custo. A criança provavelmente ouvirá os pais e seguirá aquilo que aprendeu como sendo a maneira correta de agir, e tomará esse modelo para situações semelhantes que venham a acontecer no futuro.


Essas experiências vão formando nosso modo de perceber e responder ao mundo. Na vida adulta, podemos repetir comportamentos aprendidos na infância, mesmo quando eles já não são os mais adequados para a situação. Freud chamou de compulsão à repetição essa tendência de repetir, muitas vezes sem perceber, formas de agir e de se relacionar que permanecem pouco elaboradas, e que podem até mesmo nos prejudicar.


Nosso modo de pensar e sentir o mundo é único e também pode ser atravessado por acontecimentos que nem sequer conhecemos. Histórias familiares, silêncios e segredos podem deixar marcas nas gerações seguintes. É nesse campo que encontramos a ideia de transgeracionalidade: experiências e conflitos não elaborados podem repercutir na maneira como uma família se relaciona e, consequentemente, na constituição de seus filhos.


Segredos familiares envolvendo perdas, abortos, traições ou outros acontecimentos difíceis podem permanecer presentes, mesmo quando não são conhecidos conscientemente pela criança. São histórias que, embora não sejam contadas, podem atrapalhar a relação dos pais com seu bebê. Isso pode se mostrar através de sintomas, como dificuldades de sono, de desenvolvimento, entre outros.


A psicoterapia vem ao encontro dessas questões, auxiliando-nos no autoconhecimento, na compreensão e na aceitação de aspectos da nossa história que influenciam nossas escolhas. Na psicoterapia pais-bebê, por exemplo, quando conflitos, angústias e experiências não elaboradas podem ser reconhecidos e colocados em palavras, mudanças na relação entre pais e bebê podem acontecer e, em alguns casos, sintomas psicossomáticos apresentados pelo bebê podem se modificar significativamente.


Talvez a liberdade não esteja em escolher sem influências, porque isso provavelmente seria impossível. Talvez ela esteja em reconhecer de onde vêm algumas dessas influências, compreender aquilo que aprendemos como correto e perceber o que ainda faz sentido para nós.


Conhecer nossa história não significa ficar preso a ela. Pelo contrário, pode ser justamente o que nos permite, aos poucos, escolher como ver e sentir os acontecimentos.


Nesta coluna, o psicólogo Dr. Mauricio Bolzan, compartilha reflexões sobre os vínculos humanos e os desafios emocionais que atravessam diferentes fases da vida. O conteúdo aqui colocado, é de inteira responsabilidade do colunista.


Dr. Maurício Bolzan Psicólogo | Psicanálise – CRP 07/42791

Atende crianças, adultos e idosos. Gestantes, bebês e futuros pais. Especialista na relação entre pais e bebê.

Atendimento presencial em Gramado/RS e Canela/RS, também disponível online.


Telefone: 54 99170 2020

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