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Construção Civil: Planta Summit debate o futuro urbano e a preservação do "DNA" da cidade

  • Foto do escritor: Tela Tomazeli | Editora
    Tela Tomazeli | Editora
  • 25 de mar.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 26 de mar.

GRAMADO – O futuro das cidades de Gramado e Canela e a manutenção da identidade arquitetônica que as transformou em referência nacional foram os temas centrais do Planta Summit 2026. O evento, que está sendo realizado nesta quarta-feira (25), na Casa Nuvole, reune lideranças do setor imobiliário, arquitetos e autoridades para discutir o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico acelerado e a sustentabilidade urbana que garante ao município o metro quadrado mais valorizado do Rio Grande do Sul.



 




O compromisso com o valor e a sustentabilidade


Fotos: Tela Tomazeli
Fotos: Tela Tomazeli


A abertura do encontro foi conduzida por Bernardo Tomazelli, presidente da Planta (Associação de Desenvolvimento Imobiliário Sustentável da Serra Gaúcha). Em sua fala, Tomazelli destacou que a entidade, que completou 20 anos em 2025, busca conectar os diversos atores do mercado, de engenheiros a corretores, para planejar um crescimento ordenado.


"Não podemos matar o nosso destino. Temos que prosperar e crescer ordenadamente", afirmou o empresário, enfatizando que Gramado deve ser vendida por seus valores, como segurança, limpeza e organização,  e não por "preço" ou promoções. Tomazelli ressaltou ainda que a cidade é o segundo destino turístico mais visitado do Brasil, atraindo investidores globais que buscam a qualidade de vida diferenciada da região.


A história como Guia: O "Susto" da verticalização

O painel seguinte trouxe um resgate histórico conduzido pelo engenheiro Ricardo Peccin e pelo ex-secretário José Carlos Silveira, que detalharam como a ausência de um Plano Diretor nos anos iniciais quase descaracterizou a cidade. Peccin relembrou o "grande susto" provocado pela construção do primeiro bloco do Edifício das Hortênsias, que, com sua altura elevada para os padrões locais, gerou uma reação imediata da comunidade e do poder público.


Segundo Silveira, esse episódio foi o estopim para que o então prefeito Horst Volk emitisse um decreto limitando a altura dos prédios, uma diretriz que permanece como pilar do urbanismo gramadense até hoje. "O prédio mostrou exatamente um ponto onde Gramado poderia ser outra cidade se não tivéssemos intervindo", pontuou Peccin.

 

 


A consolidação do estilo e a "Nova Centralidade"




Os palestrantes explicaram como a identidade visual de Gramado foi construída através da consciência de profissionais como o arquiteto Günter Schilieper, criador do "arco shiliperiano, e da adaptação de projetos padrão de grandes instituições, como bancos e redes de fast-food, ao estilo local.


Atualmente, o desafio se reflete no novo Plano Diretor, que impõe limites rigorosos, como o teto de 150 unidades por empreendimento para evitar grandes paredões e manter o charme da cidade. Peccin e Silveira revelaram que especialistas externos chegaram a sugerir o aumento da altura dos prédios (gabarito) para concentrar a densidade urbana, mas a proposta foi vetada por não refletir a vontade da comunidade.


O foco agora se volta para o projeto da Nova Centralidade, uma área de entorno da barragem que terá um plano diretor paralelo. A iniciativa busca criar um novo polo de desenvolvimento, mas, como reforçou Peccin, sem jamais abandonar as raízes: "O centro histórico e as nossas raízes precisam ser preservados pelo amor de Deus".



Os principais riscos mencionados pelos dois palestrantes são:

1. Descaracterização da Identidade e DNA

  • Perda da Essência: Existe um receio contínuo de que a "fuga" das diretrizes originais e a falta de adaptação ao DNA local por novos empreendedores comprometam a identidade da cidade.


  • Excesso de "Casas Temáticas": Foi apontado um risco pontual no exagero de arquiteturas temáticas que, embora atraiam turistas, podem "passar da conta", especialmente na estrada entre Gramado e Canela.


  • Importação de modelos externos: O risco de adotar projetos "padrão nacional" ou típicos de grandes metrópoles (como shoppings fechados ou outdoors volumosos) que não combinam com o charme e a escala da região.



2. Urbanismo e Verticalização

  • Verticalização excessiva: Os palestrantes veem como um grande perigo a tentativa de aumentar a altura dos prédios (gabarito). Eles relatam ter "batido o pé" contra propostas de técnicos de fora que sugeriam edifícios mais altos, o que, na visão deles, destruiria a história local.


  • Projetos de grande escala: O desenvolvimento de empreendimentos com centenas de unidades (800 a 1000 apartamentos) é visto como um risco ao "charme" da cidade, pois Gramado não comportaria construções dessa magnitude sem perder sua beleza.



3. Gestão do espaço público

  • Ocupação de recuos e jardins: Há uma preocupação com empresários que ocupam áreas de recuo para estacionamento, empurrando pedestres para as calçadas e eliminando a beleza natural dos jardins e flores típicos da cidade.


  • Poluição visual: O risco de a cidade ficar visualmente poluída caso a "lei das placas" não seja cumprida com rigor, perdendo o diferencial de ser uma cidade limpa e organizada.



4. Sustentabilidade do Destino

  • Crescimento desordenado: Bernardo Tomazelli alertou que o crescimento não pode "matar o destino". O risco é prosperar sem ordem, o que prejudicaria a sustentabilidade a longo prazo.


  • Defasagem das Leis: Um risco constante é o fato de o poder público estar sempre "correndo atrás" para adaptar as leis, já que novos projetos frequentemente encontram brechas legais para contornar o espírito da preservação arquitetônica.



Recado

“Aos empreendedores que aqui chegam, é essencial que compreendam o nosso DNA. Esse não é um papel exclusivo do poder público ou dos vereadores — é uma responsabilidade coletiva, de todos que nasceram aqui ou que viveram o suficiente para entender e valorizar essa trajetória. Somos, sim, uma terra de oportunidades. Todos são bem-vindos. Mas crescer aqui exige mais do que investir: exige respeitar as nossas raízes, a nossa cultura e aquilo que nos tornou únicos. Já vimos, ao longo do tempo, a perda de ativos importantes, de marcas que ajudaram a construir a nossa identidade, como hotéis e fábricas de chocolate. E cada perda como essa não é apenas econômica — é simbólica. É um pedaço da nossa história que se enfraquece. Por isso, o recado é claro: crescer, sim. Mas crescer com identidade. Evoluir, sem perder a essência. Porque é justamente isso que nos trouxe até aqui — e é isso que precisa nos levar adiante.”  Ricardo Peccin


Palestra Ricardo Peccin e José Carlos Silveira, clique no PDF





Centralidades

Em uma aula magna sobre o desenvolvimento das cidades contemporâneas, a professora Izabelle Colusso apresentou o conceito de centralidade urbana como o motor fundamental para a criação de valor territorial e vitalidade social. Longe de ser apenas um ponto geométrico no mapa, a centralidade é definida pela convergência estratégica de alta densidade demográfica, diversidade de usos, acessibilidade plena e atividades intensas, funcionando como o "nó" de uma rede que organiza os fluxos e deslocamentos da vida urbana. Segundo a especialista, o desafio para cidades em expansão, como Gramado, é transitar de modelos tradicionais e concêntricos para uma estrutura policêntrica, onde novos polos, sejam eles gastronômicos, turísticos ou tecnológicos , distribuam oportunidades pelo território e reduzam a dependência de eixos saturados.


Ao analisar a evolução do planejamento, Colusso destacou que uma cidade eficiente não deve funcionar como uma "árvore" onde t,odos são obrigados a passar pelo mesmo tronco ou via principal , mas sim como uma malha conectada que ofereça opções de rota e promova a "cidade de 15 minutos". Ela alertou, no entanto, para o risco das centralidades artificiais: projetos imobiliários isolados e monofuncionais que, por não estarem integrados ao mapa de origem e destino dos cidadãos, tornam-se "alienígenas" à malha urbana. Citando o exemplo histórico do Shopping Iguatemi em Porto Alegre, a professora demonstrou como a combinação de investimento privado, infraestrutura e políticas públicas pode induzir vetores de crescimento sustentáveis. O objetivo final, conforme sua fala, é evitar a "deseconomia" dos grandes congestionamentos e construir cidades mais vivas, inclusivas e conectadas, onde o valor nasce da intensidade da vida pública no espaço comum.



O arquiteto e urbanista Rafael Bazzan detalhou a estratégia para a criação de novas centralidades em Gramado, com destaque para o projeto no Mato Queimado. Bazzan argumenta que o urbanismo tradicional e os planos diretores convencionais, muitas vezes excessivamente regulatórios e bidimensionais, deixam uma lacuna de escala entre o planejamento geral do município e a arquitetura isolada do lote. Como solução, ele propõe o uso do projeto urbano como uma ferramenta de escala intermediária, capaz de desenhar a "pele da cidade", a transição vital entre o espaço público e o privado. Essa abordagem busca transformar infraestruturas de engenharia em projetos de arquitetura mais amigáveis e integrados à identidade de cada território, como já observado em centralidades existentes ou incipientes na Várzea Grande, no Carniel e na zona dos parques.


Para fundamentar essa visão, Bazzan utilizou referências internacionais de sucesso que conectam o desenho urbano à qualidade de vida e à resiliência ambiental. Ele citou a revitalização da Vila Olímpica em Barcelona, que reintegrou a cidade ao mar, e o projeto HafenCity em Hamburgo, que lida com áreas alagadiças através de edifícios elevados e espaços públicos inundáveis. O conceito de "cidades-esponja" e soluções baseadas na natureza foram destacados como pilares centrais para a nova centralidade de Gramado, especialmente após os recentes eventos climáticos extremos. Outros modelos mencionados incluíram as Superilhas de Barcelona, que priorizam o pedestre ao desviar o tráfego pesado, e o High Line de Nova York, que transformou uma ferrovia obsoleta em um parque linear suspenso.


O instrumento legal escolhido para viabilizar essa transformação é o plano setorial, um recurso ainda pouco explorado no Brasil, mas que permite uma gestão técnica e detalhada de áreas específicas. O plano para a região de 900 hectares no Mato Queimado estrutura-se sobre uma macroestrutura ambiental rigorosa, que respeita as áreas de preservação permanente e a Mata Atlântica, integrando-as a corredores ecológicos e jardins de chuva projetados. Além das diretrizes viárias e equipamentos urbanos, o projeto inova ao estabelecer um sistema de gestão e monitoramento com indicadores objetivos. Segundo Bazzan, essa estrutura permitirá ajustes contínuos ao longo do processo de implantação, garantindo que o desenvolvimento urbano de Gramado acompanhe as demandas contemporâneas de saúde, mobilidade e sustentabilidade.





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