A Tapera Italiana foi palco do quarto encontro do projeto de Turismo Rural e de Base Comunitária
- Tela Tomazeli | Editora

- há 2 horas
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Por: Redação Gramado Magazine
Editoria: Turismo
Há lugares que, por si só, já contam a história que qualquer reunião poderia demorar horas para explicar. O Moinho Grins, na Tapera Italiana, interior de Gramado, é um desses lugares. Com suas engrenagens centenárias, seus elevadores de correntes, seus cilindros que moíam trigo, milho, centeio e arroz desde o início do século passado, o moinho da família Grins recebeu, nesta segunda-feira (8), o quarto encontro do projeto de Turismo Rural e de Base Comunitária da Secretaria de Turismo de Gramado. A escolha do local não foi casual. Foi simbólica, no sentido mais profundo da palavra.
A anfitriã do dia, Marlise, apresentou ao grupo a história da família e da propriedade com a naturalidade de quem carrega esse legado no sangue. O avô, João Grins Filho, era construtor de moinhos, assim como seu pai antes dele. A linhagem remonta da Alemanha para o Brasil com esse ofício nas mãos. O moinho que hoje abriga o encontro foi transferido para a propriedade atual em 1956, depois de décadas de operação em outro ponto da região. Funcionava com motor a gasogênio de 1910, queima de lenha e geração própria de energia elétrica trifásica. Uma engenhoca de precisão que transformava grãos em farinha e que parou de operar por volta de 1970, quando o governo passou a cobrar impostos sobre os moinhos pequenos e o trigo importado tornou inviável o plantio local. A história do moinho é, de certa forma, a história de tantos outros negócios do interior: resistência, vocação, e a luta constante contra os ventos externos. O Moinho Grings, é um marco da imigração italiana construído no final do século XIX (aprox. 1880-1890) pelas famílias Trentin e Dal Ri. Com estrutura movida a água, o local preserva a história da produção de farinha e está intrinsecamente ligado à história real que inspirou o livro e filme "O Quatrilho"
Turismo Rural e de Base Comunitária
Uma entrega construída junto
O encontro teve como principal propósito apresentar à comunidade o produto consolidado dos encontros anteriores: um documento com visão, propósito, prioridades estratégicas e encaminhamentos práticos para o turismo no interior de Gramado até 2028. O trabalho é conduzido pela consultora responsável pela mediação técnica do processo, com metodologia participativa, itinerância pelas comunidades e escuta ativa dos moradores, empreendedores e agricultores da região, Luciana Tomé.
Em 2024, foi realizado um levantamento abrangente que identificou cerca de setenta negócios ligados ao turismo no meio rural de Gramado, entre atrativos, agroindústrias, eventos e atividades. O número revelou que o turismo no interior havia crescido muito além dos roteiros e rotas existentes, como o Roteiro O Quatrilho, Tour Linha Ávila, Raízes Coloniais, o Tour no Vale, a Rota do Vinho e o Caminho de Caravaggio. O interior passou a existir como um território vivo, com identidade própria, que precisava de uma abordagem diferente.
A visão definida pelo grupo é consolidar o interior de Gramado como referência nacional em turismo sustentável, integrando preservação ambiental, valorização cultural e excelência na oferta de experiências autênticas, com foco na identidade territorial e na hospitalidade. O propósito construído coletivamente é ainda mais abrangente: um território onde viver seja um privilégio, com qualidade de vida, forte senso de pertencimento e espírito comunitário, onde pessoas felizes e prósperas se orgulham de fazer parte.
Quatro eixos, uma Direção
O plano estrutura as ações em quatro eixos estratégicos. O primeiro é a governança e gestão do patrimônio comunitário, que propõe estabelecer um modelo participativo e integrado para proteger, valorizar e gerir as riquezas do interior para as futuras gerações. O grupo deixou claro que o diferencial do interior não é replicar o que a cidade já entrega, mas sim valorizar o que é genuinamente seu: cultura, identidade, patrimônio material e imaterial. Criar uma associação e fazer folder foi descartado como ponto de partida. A motivação é mais profunda, e a construção será feita com a trabalheira que isso requer.
O segundo eixo é a infraestrutura, com foco em desenvolver soluções sustentáveis e de qualidade que respeitem a paisagem, a cultura e o patrimônio, promovendo o bem viver de moradores e visitantes. O grupo apontou que cada comunidade tem necessidades distintas, e o levantamento dessas diferenças por linha é uma prioridade. A atualização da sinalização turística é ação prioritária para 2026, integrada ao início do projeto de branding para o interior, que definirá a identidade visual conectada ao city branding "Gramado Feita de Histórias". Os dois projetos têm orçamentos já levantados e dependem da captação de parceiros para viabilização, sendo o Sicredi um interlocutor natural dessa construção.
O terceiro eixo é a experiência, com o objetivo de proporcionar vivências autênticas e integradas no território, onde o bem viver do morador seja a base da hospitalidade. A proposta é que o turista experimente não uma encenação criada para ele, mas a cultura viva de um lugar que existe por si mesmo. O mapeamento de atrativos naturais para estruturar ofertas de ecoturismo, turismo de aventura e turismo contemplativo surgiu como demanda do próprio grupo, surpreendendo inclusive a equipe técnica, que desconhecia a existência de cachoeiras e outros atrativos naturais espalhados pelas linhas do interior.
O quarto eixo é o mercado, que busca ampliar o acesso a oportunidades para que os empreendedores do interior prosperem e permaneçam no campo. A estratégia de branding para o interior, conectada à marca da cidade, incluindo um selo de origem para produtos locais, e uma campanha de comunicação online e offline são as ações definidas como prioritárias nesse eixo.
Patrimônio: A Alma que não se pode perder
A Secretaria de Cultura marcou presença no encontro com dois técnicos que compartilharam a política de patrimônio do município. Um museólogo concursado da Prefeitura, Dr. Márcio Dillmann de Carvalho, e o historiador Wanderley Cavalcante, apaixonado pela cidade, autor de diversos livros sobre a história local, trouxeram ao grupo a reflexão sobre o que significa preservar o patrimônio material e imaterial de Gramado.
A mensagem foi direta: não há sentido em desenvolver o turismo rural e convidar visitantes para ouvir as histórias do interior se essas histórias não forem preservadas. O olhar de salvaguarda sobre o território é condição para que o turismo seja genuíno. Durante os encontros anteriores, os participantes relataram com frequência o que está se perdendo, as tradições que desaparecem, os modos de vida que se transformam sem diálogo com a memória do lugar. Esse foi um dos temas mais recorrentes nas discussões do grupo, e agora se traduz em ação concreta: uma política pública robusta de preservação, recuperação e valorização do patrimônio comunitário está entre as prioridades definidas para os próximos dois anos.
Também foi apresentado ao grupo o Projeto Hortênsia, iniciativa que une poder público e iniciativa privada para estimular o pertencimento das crianças em relação a Gramado. O projeto atende cerca de quatrocentos alunos de escolas do município, em sua maioria públicas, com três momentos pedagógicos: uma visita às escolas com anfitriões que fazem parte da história de Gramado, o plantio de hortênsias junto ao Horto Municipal, e uma saída de campo em que as crianças visitam pontos turísticos ouvindo das próprias pessoas as histórias reais da cidade. A hortênsia, flor símbolo de Gramado, é o fio condutor de um projeto que tem raízes na Festa das Hortênsias, a primeira grande festa da cidade, e na imagem dos corredores floridos que definiram a identidade visual de Gramado para o mundo. No encontro, participantes sugeriram a inclusão de agricultores, apicultores e produtores de morango nessa dinâmica, levando para dentro das escolas o universo do campo e das comunidades rurais.
O Projeto que não para entre os Encontros
Uma das marcas mais celebradas pelo grupo é a continuidade. O projeto nasceu de uma provocação da consultoria de Luciana Tomé à Secretaria de Turismo, ainda na gestão anterior, e foi ganhando corpo ao longo de sucessivos encontros itinerantes pelas linhas do interior. A cada encontro, mais pessoas se juntam ao grupo, mais perspectivas entram na conversa, e a consistência do processo fica evidente. Ninguém desmobiliza entre um encontro e o outro.
A metodologia de itinerância tem também um propósito menos óbvio: fazer com que as comunidades se visitem. Uma das constatações do processo foi que a maioria dos participantes se conhece de nome, mas muitos nunca estiveram uns nas propriedades dos outros.
A próxima fase, que virá após esta reunião, é o detalhamento dos projetos priorizados em cronograma e plano de trabalho, para que as ações saiam do papel. O grupo também tem perspectiva de realizar uma visita técnica ao Espírito Santo, referência nacional em turismo de interior organizado, assim como já foi realizada visita a Bento Gonçalves, outra referência em turismo rural bem estruturado.
Por que isso Importa
Gramado é conhecida pelo mundo. Seus parques, espetáculos, eventos e infraestrutura turística estão entre os mais sofisticados do país. Mas há quem chegue ao centro da cidade e sinta que algo falta. Que por trás de tanta produção, de tanto entretenimento, existe uma outra Gramado que nem sempre aparece. O Secretário de Turismo, Ricardo Reginatto, já disse publicamente que a alma da cidade reside no seu interior. É nas linhas, nos moinhos, nas propriedades familiares, nas receitas coloniais, nas cachoeiras ainda sem placa, nas histórias contadas em volta da mesa, que mora o que Gramado tem de mais verdadeiro.
O projeto de Turismo Rural e de Base Comunitária não é uma estratégia de venda. É uma estratégia de sobrevivência cultural. É a decisão consciente de que a prosperidade do interior não pode vir desacompanhada da valorização da identidade e da preservação do patrimônio. Que os filhos e netos dos agricultores tenham razão para ficar. Que quem chegou depois aprenda a pertencer. Que o visitante encontre, a poucos quilômetros do cartão-postal, o lugar onde Gramado respira de verdade.
O moinho ainda está de pé. A família ainda cuida dele. E o grupo que se reuniu ali nesta segunda-feira decidiu, mais uma vez, que essa história vai continuar.

A história real por trás do Quatrilho nasceu aqui, na Tapera Italiana, entre dois casais de imigrantes que tentavam apenas construir uma vida nova. Marlise Grins conta. E avisa: antes de chegar ao escândalo, essa história passa pela dor.

Antes de falar do moinho, das engrenagens e da farinha, Marlise Grins faz questão de começar pelo começo. Antes dos colonos, viviam aqui povos indígenas. Depois vieram os imigrantes italianos, e com eles chegou o primeiro morador desta propriedade: Nicodemo Brandini.
Nicodemo e Carolina
Nicodemo nasceu na Itália e veio para o Brasil acompanhado da mãe viúva e dos irmãos. Não vieram direto para cá. Pararam primeiro em Caxias do Sul, que era o grande centro dos italianos na época, e por lá ficaram dois anos. Foi nesse tempo que Nicodemo conheceu Carolina Tessaro, também italiana, também chegada de longe. Os dois se encontraram, se gostaram, casaram, compraram um lote de terra e vieram parar exatamente aqui, na Tapera Italiana.
Quando chegaram, a casa ainda estava por fazer. Enquanto isso, se abrigaram numa tapera velha, um ranchinho abandonado que ficava na beira do caminho e servia de pouso para quem passasse por ali. De tanto se falar naquela tapera, o nome ficou para o lugar até hoje.
Nicodemo olhou para o rio do lado e teve uma ideia. Montar um moinho. Fazer farinha. Ia ser um baita negócio. O problema era que não tinha dinheiro nem para a terra que havia comprado, quanto mais para erguer um empreendimento. A solução foi procurar um sócio.
Giuseppe e Maria
Esse sócio se chamava Giuseppe Dal Ri. Também italiano, já casado com Maria, pai de três filhos. Os dois conversaram, a sociedade foi combinada, as famílias passaram a se conhecer e se visitar, e juntos colocaram o plano em prática. Construíram o moinho na beira do rio, lá embaixo, onde a queda d'água fazia girar a roda. O armazém veio depois. No começo, as duas famílias moravam juntas numa casa de madeira do outro lado da estrada. Era assim que se vivia.
Marlise para. O que vem a seguir, ela avisa, o filme não conta.
A dor
Em 1907, adoeceu gravemente uma menina de sete anos. Não havia recurso médico por perto. Era preciso partir a cavalo para buscar socorro mais adiante. A Maria, mãe da criança, estava grávida de novo e não podia ir. Quem acompanhou o pai, o Nicodemo, foi a companheira da casa, a Carolina. Ficaram uma semana fora. A menina não resistiu e nem foi trazida de volta.
Pouco tempo depois, em casa, morreu também um menino de nove anos. A Maria perdeu dois filhos em questão de meses. Depois disso tudo, nasceu o neném. E a Carolina, durante esse período todo, ainda ficou ao lado da Maria, ajudando no que precisava.
As desculpas
Até que um dia, umas duas semanas depois do nascimento, a Carolina disse que estava bem, que já conseguia se virar, e que ia visitar os parentes em Cachoeira do Sul. E foi.
Dias depois, correu a notícia de que os homens também tinham um negócio para resolver naquele lado. Comprar duas mulas. Quem foi tratar do assunto foi o Giuseppe, marido da Maria. Só que quando chegou lá, o negócio das mulas não existia. O que existia era a Carolina, esperando conforme o combinado.
Os dois embarcaram no trem. Mandaram recado para casa. E foram embora, deixando tudo para trás. A data da fuga ficou registrada: noite de 27 de abril de 1907.
Quem fica
Em casa, ficou a Maria. Com os filhos. O mais velho tinha doze anos. O neném tinha três semanas de vida.
Por cerca de seis meses, a situação ficou suspensa. O que fazer, o que não fazer. Nesse meio tempo houve uma festa na Linha Marcondes. Nicodemo foi. E lá conheceu uma mulher que também estava sozinha. Ela começou a se achegar para perto, e ele acabou trazendo-a para casa.
A Maria não disse nada. Mas estava planejando.
Quando a mulher chegou, a Maria a tocou embora. Depois sentou com o Nicodemo para conversar. E disse: se é por causa de mulher, eu também sou mulher. Se é esse o problema, tá resolvido aqui.
Seis meses depois que os outros fugiram, os traídos da história também resolveram viver juntos.
A vida dos dois não foi fácil do lado de fora. Moravam do lado da igreja, frequentavam a missa, ajudavam na comunidade. O padre chamou o Nicodemo, que fazia parte da diretoria da igreja, e disse que ele não podia mais ficar. A Maria entrou na igreja, disse um monte de verdades na frente do padre e de todo mundo, e saiu toda revoltada. Tanto o livro quanto o filme fazem uma crítica dura à postura da igreja nesse momento. Ajudar, ajudar pode, mas nesse momento não.
Entre eles, tudo sempre numa boa. A língua do povo é que corria solta.
Nicodemo e Maria se juntaram e tiveram mais cinco filhos. Juntaram com os seis filhos que ela já tinha, mais a filha que ficou quando os outros fugiram. Uma grande família, construída sobre as ruínas de uma traição e sobre a coragem de uma mulher que escolheu seguir em frente.
Nicodemo faleceu em 1944. Maria em 1955. O túmulo dos dois fica no cemitério ao lado da igreja. Pelo fato de terem o moinho, tinham uma situação financeira melhor que a maioria na região, e há até uma foto dos dois na praia de Capão da Canoa. A vida, no final, foi generosa com os traídos.
Virou livro e filme
Essa história chegou ao mundo através do escritor José Clemente Pozenato, que havia sido colega do neto do Nicodemo no seminário. Ouvindo a história pelo amigo, resolveu transformá-la em romance. Mas na hora de escrever, trocou os nomes verdadeiros por personagens ficcionais: Pierina, Ângelo, Máxima, Teresa. E fez de conta que a história não era aqui.
O livro se chamou O Quatrilho. O nome vem de um jogo de cartas com baralho espanhol, onde se retiram os oitos e os noves, ficam quarenta cartas, e quatro pessoas jogam. No final de cada rodada, os parceiros trocam. Como na vida real houve essa troca, o nome fez todo o sentido.
O filme foi baseado no livro, e por isso foi rodado em Cenas, e não aqui. Só durante as filmagens é que a história real veio à tona, com o lugar verdadeiro e os nomes verdadeiros por trás dos personagens. Mas o filme já estava pronto. Em 1995, O Quatrilho concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
A fofoca que quase ganhou o Oscar começou na noite de 27 de abril de 1907, nesta propriedade, entre dois casais de imigrantes que tentavam apenas construir uma vida melhor numa terra nova.
E a família que hoje cuida do lugar chegou aqui por causa do moinho, lembra Marlise com um sorriso. Não para continuar aquela sequência de troca de casais e troca de sócios.
*A história acima foi contada por Marlise Grins durante o quarto encontro do projeto de Turismo Rural e de Base Comunitária de Gramado, realizado no Moinho Grins, na Tapera Italiana, em 8 de junho de 2026. Texto produzido com base nos registros do quarto encontro do projeto de Turismo Rural e de Base Comunitária de Gramado, realizado no Moinho Grins, na Tapera Italiana, em 8 de junho de 2026.





































































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