“A história que poucos conhecem sobre Rodrigo Ruas”, por Tela Tomazeli
- Tela Tomazeli | Editora

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“Viva coisas que ninguém pode fazer por você.

Rodrigo Ruas, por Tela Tomazeli
Connection Terroirs do Brasil/Gramado, RS
Quando Rodrigo Ruas tinha 15 anos, via os primos ricos da capital chegarem ao interior de Cachoeira Paulista para curtir as férias contando sobre o high school nos Estados Unidos. Encantado com a possibilidade de estudar fora, ele passou a pedir aos pais para fazer o intercâmbio, mas a família, de tapeceiros e decoradores, não tinha condições financeiras para isso.
A solução veio de uma dívida antiga: um cliente do Rio de Janeiro devia dinheiro ao pai de Rodrigo havia anos por um serviço de decoração de hotel. A mãe dele negociou pessoalmente com o homem, propondo que ele pagasse a dívida diretamente à escola de intercâmbio. Comovido, o cliente aceitou financiar os estudos do jovem.
Com apenas mil dólares no bolso, Rodrigo foi morar em uma fazenda nos Estados Unidos, onde sobrevivia com cerca de 80 dólares por mês trabalhando na colheita de tabaco e milho. Foi essa experiência que abriu as portas para o inglês fluente, a ferramenta que ele usaria depois para conseguir o curso de comissário de bordo e, mais tarde, construir sua jornada por quase cem países.
Ele chegou ao palco do Connection Terroir do Brasil carregando na pele uma tatuagem com história, na bagagem décadas de vivências pelo mundo e na voz a leveza de quem aprendeu que a maior riqueza do turismo não está no que se vê, mas no que se sente. Rodrigo Ruas, apresentador de televisão com 20 anos ininterruptos no ar, transformou sua trajetória pessoal numa masterclass sobre autenticidade, pertencimento e o poder de encantar. Mas antes de chegar às câmeras, ele passou pelos corredores de hotéis, pelas montanhas-russas de parques temáticos e pelos estacionamentos de restaurantes em San Diego. A história que “ninguém fala sobre o Ruas”, como ele mesmo chamou, começa muito antes dos holofotes.
Com dezoito anos, Rodrigo Ruas foi trabalhar no Maswik Lodge, o hotel dentro do Grand Canyon National Park, nos Estados Unidos. Camareiro. Dezoito quartos por dia, corredor após corredor, nos bastidores de um dos destinos mais visitados do mundo. O objetivo, conta ele, era simples: não perder o inglês. Mas o que aconteceu nesses corredores revelou muito mais do que um idioma em dia. Ruas começou a abordar os hóspedes que cruzava no caminho, oferecendo dicas espontâneas: ao casal com roupa fitness, indicava o trekking até o Colorado River; para quem viajava com crianças, revelava a brinquedoteca escondida atrás do marketplace; ao grupo mais maduro, recomendava o rooftop com a melhor vista do entardecer. Tudo isso de avental, entre um quarto e outro.
A direção do hotel não tardou a chamá-lo. Ruas esperava uma repreensão. Recebeu um convite. Os comentários dos hóspedes no checkout, naquela época ainda feitos no papel, estavam cheios de elogios a um tal “Rod”, como eles insistiam em chamá-lo, já que “Rodrigo” parecia impossível de pronunciar para os hóspedes americanos. “O Rod me deu uma dica incrível”, “eu vi o pôr do sol que o Rod sugeriu”, “fui ao Colorado River por causa do Rod.” A gerente foi direta: “Você quer ser o nosso concierge?”
Ruas não sabia o que era concierge. Aprendeu na hora. E aprendeu de verdade, porque a chefe não o deixou simplesmente trocar o avental pelo terno. Nos dez dias seguintes, ele foi mandado para jantar em todos os restaurantes do Grand Canyon, voar de helicóptero, de avião, pular de paraquedas e descer o rio em rafting. A lição que ficou foi precisa: a percepção de um camareiro não pode ser confundida com a percepção de todos os hóspedes. Para orientar bem, é preciso ter vivido. Foi o primeiro upgrade de uma trajetória de muitos.
Antes do Grand Canyon, porém, Ruas já havia trabalhado como comissário de bordo e como garçom em transatlântico. Depois do hotel, partiu para San Diego, na Califórnia, onde vendia hot dog e algodão doce no Belmonte Park de manhã, surfava todas as tardes e à noite manobrava carros em Downtown. Juntou dinheiro, voltou ao Brasil por conselho da mãe, que não se ignora, como ele mesmo frisou, e foi fazer faculdade de Jornalismo numa pequena instituição em Lorena, interior de São Paulo.
Foi na cadeira da televisão, no terceiro ano do curso, que tudo se encaixou. A união entre o audiovisual e o rádio, aliada à sede de mundo que carregava desde os corredores do Grand Canyon, gerou uma pergunta que mudou tudo: “Qual é o meu propósito?” A resposta que veio da plateia no Connection Terroir foi a mesma que Ruas carregava dentro de si desde os dezoito anos: viajar o mundo. E assim nasceu o programa que ele faz até hoje, completando em março deste ano duas décadas ininterruptas no ar.
Com esse currículo de vida, Ruas chegou a Gramado não apenas para falar de turismo, mas para mostrar o que o turismo pode ser quando alguém o vive de dentro para fora. Ao longo de mais de quinze anos percorrendo destinos pelo mundo, acumulou histórias que usa como ferramentas de transformação. No Canadá, descobriu o cardápio “One Hundred Miles”, criado por uma rede de restaurantes de Toronto que serviam apenas ingredientes produzidos num raio de cem milhas do estabelecimento. Uma revelação que carrega até hoje: a ideia de que o produto da terra, quando bem contado, agrega valor imensurável ao prato e ao lugar. Na Grécia, foi fisgado de um jeito que nenhuma paisagem poderia fazer sozinha: uma senhora grega o puxou pela mão, levou ao jardim da casa que pertenceu ao bisavô dela, colheu o tempero para a salada ao vivo e ainda chamou o neto para colocar um disco de vinil com música tradicional. Dançaram. Ruas não esqueceu.
Foi justamente essa filosofia que trouxe ao palco do Connection Terroir. Um novo consumidor de turismo, disse ele, não busca mais apenas o destino, mas o significado. Que escolhe conexão em vez de passagem, emoção em vez de cartão-postal. E que está disposto a pagar mais por experiências que só ele pode viver, que ninguém pode fazer por ele.
A frase virou bordão da tarde: “Viva coisas que ninguém pode fazer por você.” Um posicionamento que ele propôs como slogan ideal para o setor hoteleiro e turístico, resumindo com simplicidade o que diferencia uma estadia comum de uma memória que dura uma vida.
Em Gramado, hospedado no Hotel Valle D’Incanto, Ruas chegou às dez e meia da noite e foi recebido por um recepcionista que convidou o hóspede para um tour pelas instalações do hotel, contando a história dos tijolos da fachada, que pertenciam à casa do avô do fundador. “Eu nem sei se é verdade”, admitiu, rindo. “Mas já estava dentro da história.” E foi isso que ficou. Não o quarto, não a decoração. A narrativa.
Quando alguém da plateia mencionou o chimarrão, ele chegou em três segundos nas mãos do apresentador. A cena virou aula prática: surpresa genuína, custo zero, memória garantida. Ruas tomou, brindou, ouviu que “chimarrão é pra prosear” e anunciou que jamais esqueceria aquele momento vivido em Gramado.
Nas redes sociais, ele defende a autenticidade com a mesma firmeza com que um dia defendeu suas dicas espontâneas nos corredores do Grand Canyon. Conta que sua audiência explodiu quando parou de usar filtros, quando abandonou a produção excessiva e passou a mostrar o que estava vivendo de verdade. A diretora do seu programa, Ane, parceira de dezessete anos, foi quem primeiro lhe disse: “Rodrigo, bota esse jeitão louco seu no ar. Vai ser muito melhor.” Ele ouviu. E deu certo.
...conte a sua história...
A mensagem que Rodrigo Ruas deixou em Gramado é ao mesmo tempo simples e profunda: conte a sua história. A do seu hotel, do seu restaurante, do seu produto, do seu serviço. De como você começou, do que te trouxe até aqui.
Quando você conta uma história verdadeira para o seu consumidor, tudo muda. O preço muda, a percepção muda, a relação muda.
Fotos: Anselmo Cunha




















































































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