Crise da Água em Gramado: O histórico do embate e os papéis institucionais
- Tela Tomazeli | Editora

- 10 de jun.
- 6 min de leitura

Por: Redação Gramado Magazine
Editoria: Cidade e Comunidade
GRAMADO - A prestação de serviços de saneamento básico e abastecimento de água potável em Gramado passou a ser gerida pela AEGEA/Corsan após o processo de privatização da companhia estadual. Desde que assumiu a concessão, a empresa tem sido alvo de monitoramento constante devido às recorrentes reclamações da comunidade local sobre desabastecimento, interrupções no fornecimento e questionamentos técnicos.
Dentro da dinâmica municipal, as queixas da população se concentram nos prejuízos econômicos ao comércio e ao turismo, além dos transtornos diários sofridos pelos moradores nos bairros. Diante desse cenário, a administração municipal atua na cobrança do cumprimento das metas contratuais de investimento estabelecidas, enquanto a Promotoria de Justiça e a Defensoria Pública do Estado ingressam na esfera jurídica e de proteção social para apurar os danos coletivos causados pela crise hídrica. Na outra ponta, os vereadores dividem-se entre a necessidade de investigação profunda e o respeito aos trâmites técnicos e regimentais do parlamento.
Cronologia dos Fatos: Da mobilização ao embate político
28 de maio de 2026 – A Articulação Legislativa
Os primeiros movimentos contundentes no Poder Legislativo ganham publicidade com a notícia de que todos os vereadores da Casa decidiram endossar a abertura de uma investigação formal. O consenso inicial entre os parlamentares demonstra a urgência do tema perante a pressão popular provocada pelas falhas no abastecimento e saneamento básico na cidade.
1º de junho de 2026 – O Protocolo da CPI na Várzea Grande
Durante a Sessão Descentralizada realizada na Sociedade Ipiranga, localizada no bairro Várzea Grande, Vale das Montanhas, é oficialmente apresentado o Requerimento REQ 007/2026. O objeto do documento prevê a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar minuciosamente o contrato firmado entre o Município de Gramado e a AEGEA/Corsan, investigando possíveis irregularidades no fornecimento de água potável.
9 de junho de 2026 – O indeferimento técnico e a reação do Ministério Público
Em uma reviravolta jurídica, a Presidência da Câmara Municipal de Gramado decide pelo arquivamento do pedido de CPI. O presidente da Casa, Neri Paulo do Nascimento, fundamenta o despacho apontando que o requerimento não atendeu aos critérios obrigatórios da Lei Orgânica e do Regimento Interno, citando a ausência de um prazo determinado para a conclusão dos trabalhos e a falta de um fato determinado específico, classificando o objeto como genérico.
A decisão menciona ainda o Ofício nº 14/2026 do proponente, que mantinha a programação em aberto, e destaca a existência de investigações paralelas de outros órgãos, como o Procedimento para Apuração de Dano Coletivo instaurado pelo defensor público Dr. Igor Menini. A Presidência argumenta que evitar estruturas paralelas preserva os princípios da eficiência e da economicidade.
O Ministério Público
O promotor Max Guazzelli afirmou que acompanha a Corsan de perto desde 2011 e que nunca houve tanto investimento na companhia. Destacou que o Ministério Público já ajuizou diversas ações contra a Corsan e que acompanha cada detalhe com rigor. Para ele, a CPI da Corsan só terá validade se apresentar informações novas e relevantes; caso contrário, será considerada um gasto desnecessário de recursos públicos. Guazzelli ressaltou que, se o relatório da CPI trouxer apenas dados que já são de conhecimento do Ministério Público, cobrará dos vereadores a devolução dos valores gastos, citando precedentes em outras cidades onde o Judiciário determinou a restituição ao erário. Ele classificou a CPI como absurda e defendeu que os vereadores deveriam concentrar esforços em problemas mais urgentes, como a situação crítica do hospital municipal, em vez de tratar de questões já resolvidas. (Palavras retiradas da entrevista ao jornalista Caique Marquez)
9 de junho de 2026 – O Repúdio da Oposição Parlamentar
Imediatamente após o arquivamento, o Gabinete do Vereador Roberto Cavallin emite uma nota oficial de repúdio à decisão da Presidência. O parlamentar rebate os argumentos técnicos, defendendo que a falta de água não é um fato genérico, mas uma situação concreta e prejudicial. Cavallin argumenta que eventuais ajustes formais no requerimento poderiam ter sido sanados sem o cancelamento da comissão, pontuando que quando a população sofre, investigar não é uma opção, é um dever.
10 de junho de 2026 – A Criação da Comissão Temporária Especial
Como alternativa prática ao arquivamento da CPI, o vereador Ike Koetz protocola a proposta de criação de uma Comissão Temporária Especial, acolhendo uma sugestão do próprio presidente Neri Nascimento. Com prazo inicial de 180 dias e formada por três vereadores, o novo grupo foca em uma fiscalização ágil e colaborativa das metas de investimento da Corsan.
O formato prevê a realização de consultas públicas, audiências com a AGERGS e a solicitação de laudos oficiais sobre a qualidade da água. O vereador Ike Koetz defende a medida afirmando que o presidente Neri foi extremamente assertivo e responsável, oferecendo um formato muito mais seguro e focado em resultados reais, provando que não há omissão por parte do Legislativo.
Minha Opinião

Providências já sugeridas para melhorar o serviço da Corsan em Gramado
Comunicação e Relacionamento com a Comunidade
A criação de um site ou aplicativo com informações em tempo real sobre o andamento das obras é uma necessidade urgente. Isso permitiria que a população acompanhasse prazos, locais e impactos previstos de forma transparente. Essa proposta já foi solicitada diversas vezes, assim como a indicação de uma pessoa responsável pelo Relacionamento com a comunidade.
Hoje, o modelo de comunicação é moroso: a população precisa recorrer aos vereadores, que levam o assunto à tribuna, para que a Corsan ouça e dê uma resposta. Esse caminho é burocrático e lento. É preciso reconhecer que a empresa parece evitar o contato direto com a comunidade, e isso gera desconfiança. É uma barreira interna, seja no olhar da alta gestão, na missão institucional ou na forma como a administração está estruturada.
Em 2026, é inadmissível que uma companhia de saneamento não consiga se comunicar de forma eficiente e organizada com seus usuários. Comunicação não é apenas um detalhe: é parte essencial da prestação de serviços. Sem ela, qualquer avanço técnico perde credibilidade.
Quero deixar claro: valorizo o trabalho da Corsan e reconheço os avanços que vêm sendo feitos. Mas, para que Gramado seja realmente um cartão de visita dentro do Marco do Saneamento até 2033, é indispensável que a empresa olhe para dentro, identifique o que trava a contratação de um serviço de fornecedores eficiente, a sua comunicação e implemente soluções modernas e eficazes. A comunidade precisa ser informada, respeitada e envolvida. Só assim o serviço público se fortalece e ganha confiança.
Sendo sincera, eu vejo, pelo tempo que acompanho os processos, um 'cansaço' institucional de gestão...
Canal via WhatsApp para aviso de obras Criar um sistema de comunicação direta com os moradores. A Prefeitura já faz planejamento e divulgação, mas nem sempre a informação chega ou é lida. A RGE, por exemplo, envia e-mails com 30 dias de antecedência informando data e horário da falta de luz. Se a RGE pode, por que a Corsan não pode?
Integração com a Secretaria de Educação Estabelecer um planejamento mensal das intervenções e enviar comunicados para que os alunos levem para casa, garantindo que as famílias sejam informadas.
Cadastro de lideranças comunitárias Assim como a Defesa Civil e a Secretaria da Agricultura possuem contatos organizados, a Corsan poderia montar um cadastro de líderes de bairros e colônias, utilizando grupos de WhatsApp para avisar sobre possíveis faltas de água ou outras ocorrências, da mesma forma que já faz com a imprensa.
Investimento em tecnologia e qualificação de fornecedores Se Gramado pretende ser referência nacional no Marco do Saneamento até 2033, é indispensável implementar serviços eficientes. O escritório da Corsan em Gramado, hoje, é um retrato da precariedade. É urgente contratar fornecedores qualificados e buscar inspiração em exemplos de excelência, como o trabalho da Sulgás.
Finalmente, a Corsan deveria designar um Profissional de Relacionamento Comunitário como ponto focal em Gramado, responsável por aproximar a empresa da população e garantir comunicação transparente e ágil. Esse profissional, preferencialmente com formação em Comunicação Social, Relações Públicas ou Gestão Comunitária, teria como missão traduzir informações técnicas em linguagem acessível, ouvir as demandas da comunidade com empatia, mediar conflitos e organizar canais modernos de comunicação, como aplicativo, site e grupos de WhatsApp. Com essa função, a empresa reduziria a morosidade atual, fortaleceria a confiança dos moradores e mostraria compromisso real com a qualidade da prestação de serviços. Importante: A prestação do serviço deve exisitir, senão não há o que comunicar.
Tela Tomazeli
Cidadã Gramadense


































































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